Ney Matogrosso completou 85 anos neste sábado, 1º de agosto, ocupando um lugar raro na música brasileira: o de artista que virou referência sem jamais parecer preso ao passado. Mais de cinco décadas depois de surgir nacionalmente à frente dos Secos & Molhados, ele continua reconhecido pela voz aguda, pela presença cênica e por uma liberdade artística que abriu caminhos para várias gerações.
Antes da fama, Ney viveu uma juventude bem diferente da imagem que levaria aos palcos. Filho de militar, entrou para a Aeronáutica aos 18 anos e, mais tarde, trabalhou em Brasília em um laboratório de anatomia patológica. Também estudou teatro, participou de festivais universitários e integrou um quarteto vocal. Em 1966, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde produzia e vendia peças de artesanato e figurinos enquanto buscava espaço como artista.
A virada veio por meio da cantora e compositora Luhli, que o apresentou a João Ricardo e Gérson Conrad. Os dois procuravam uma voz masculina aguda para os Secos & Molhados. Ney não apenas assumiu os vocais: ajudou a criar a identidade visual do grupo, combinando pinturas no rosto, figurinos andróginos, dança e teatralidade. O álbum de estreia, lançado em 1973, vendeu mais de um milhão de cópias e colocou músicas como “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima” e “O Vira” no centro da cultura popular.
Quando deixou a banda, ele evitou repetir a fórmula de sucesso. O primeiro disco solo, “Água do Céu – Pássaro”, de 1975, investiu em experimentação e apresentou uma capa igualmente provocadora. A censura da ditadura ainda tentou limitar sua imagem. Em 1978, o álbum “Feitiço” chegou às lojas envolvido em plástico preto porque a capa mostrava o cantor com o peito nu. A medida acabou despertando ainda mais curiosidade.
Ao longo dos anos, Ney também funcionou como uma ponte para outros repertórios. Sua gravação de “Pro Dia Nascer Feliz”, em 1983, ajudou a ampliar a projeção do então jovem Barão Vermelho. Em 1985, foi o primeiro artista a subir ao palco na história do Rock in Rio. Dois anos depois, surpreendeu novamente ao abandonar a maquiagem em “Pescador de Pérolas”, espetáculo no qual apareceu de terno e concentrou a atenção na interpretação.
Sua discografia solo reúne quase 40 álbuns e atravessa MPB, rock, samba, bolero e música latina. O cinema renovou essa conexão com o público em 2025, quando “Homem com H”, estrelado por Jesuíta Barbosa, levou sua história às telas. Aos 85, Ney permanece como uma prova viva de que inquietação, disciplina e liberdade podem caminhar juntas — e de que um grande intérprete nunca termina de reinventar uma canção.